Salto de desenvolvimento existe? O que se sabe
A teoria dos saltos é popular no mundo inteiro, mas a pesquisa por trás dela é pequena e discutida. Contamos o que os estudos mostraram, o que não mostraram e como usar a ideia com tranquilidade.
Por Joyce Sousa, psicóloga · CRP 06/221203Atualizado em 31 de outubro de 2026 · 6 min de leitura



Pingo · resposta rápidaExistem fases em que muitos bebês choram mais e pedem mais colo antes de uma novidade, e muitas famílias reconhecem isso entre o nascimento e cerca de 1 ano e meio. O que não está comprovado são 10 saltos em semanas fixas: a ideia vem de um estudo pequeno, de 1992, feito pelos próprios autores, e as tentativas de repetir tiveram resultados diferentes.
Neste texto
Existe salto de desenvolvimento? A resposta curtaDe onde vem a ideia dos saltos?Os estudos repetiram o resultado?Por que os pesquisadores discordam?O que se sabe com mais segurança?Vale a pena usar o calendário de saltos?Quando conversar com o pediatraPerguntas frequentesExiste salto de desenvolvimento? A resposta curta
Existe uma parte que quase todo mundo reconhece: bebês passam por fases em que choram mais, pedem mais colo e dormem pior, e depois parecem dar um passo à frente. Isso é real e acontece em muitas casas.
O que não está comprovado é a versão mais famosa da ideia: 10 saltos que chegam em semanas fixas, contadas pela data prevista do parto, com começo e fim previsíveis. Essa versão vem de um estudo pequeno, feito pelos próprios autores, e as tentativas de repetir o resultado deram respostas diferentes. A seguir, contamos o que encontramos, sem exagerar para nenhum lado.
De onde vem a ideia dos saltos?
A história começa longe dos bebês humanos. Entre 1971 e 1973, o casal holandês Frans Plooij e Hetty van de Rijt-Plooij observou filhotes de chimpanzés em liberdade no parque de Gombe, na Tanzânia, onde Jane Goodall fazia sua pesquisa. Eles contam que os filhotes tinham períodos em que voltavam a grudar na mãe, antes de ganharem mais independência.
De volta à Holanda, os dois acompanharam 15 bebês e suas mães. As mães respondiam questionários e eram entrevistadas toda semana, e a equipe conferiu essas informações observando de perto 2 das 15 famílias. Em 1992, publicaram o estudo numa revista científica de psicologia infantil, descrevendo 10 períodos de “regressão” nos primeiros 20 meses, cada um seguido de novas habilidades. No mesmo ano saiu a versão para famílias, o livro holandês The Wonder Weeks, dos anos 1990, que depois ganhou edições em vários países.
Repare em três coisas: era um grupo pequeno, a observação dependia muito das anotações das mães e o estudo foi feito pelos mesmos autores que criaram a teoria. Nada disso torna o trabalho inválido, mas é o tipo de estudo que precisa ser repetido por outras equipes antes de virar certeza.
Os estudos repetiram o resultado?
Ciência funciona assim: um grupo encontra algo, outros grupos tentam encontrar a mesma coisa. Estes são os estudos que conseguimos confirmar:
| Onde e quando | Quem fez | O que encontrou |
|---|---|---|
| Holanda, 1992 | Os próprios autores do livro | 10 períodos de regressão em 15 bebês, nos primeiros 20 meses |
| Holanda, 1998 | Carolina de Weerth e Paul van Geert, Universidade de Groningen | Acompanharam 4 pares de mãe e bebê, com visitas semanais, por 15 meses. Os resultados não sustentaram o padrão de 10 períodos. Viram grandes diferenças de um bebê para outro |
| Espanha (Catalunha), 2002 | Sadurní e Rostan, Universidade de Girona | 8 períodos de regressão no primeiro ano, em 18 bebês, comparáveis aos 8 primeiros do livro |
| Suécia e Inglaterra, publicados em 2003 | Equipes de Gotemburgo e de Oxford, em capítulos de um livro organizado pelo pesquisador Mikael Heimann | Encontraram apoio para alguns períodos e não para outros. O capítulo inglês tem um título que diz muito: “sinais fracos num ambiente ruidoso” |
| Espanha, 2010 | Sadurní, Pérez Burriel e Plooij | Com os mesmos 18 bebês catalães, encontraram 8 períodos de transição no primeiro ano, próximos no tempo das regressões. Um dos autores do livro assina o estudo |
Resumo dos estudos que localizamos. Fontes no fim do texto.
O quadro é este: há estudos que encontraram fases parecidas, mas com poucos bebês, e uma parte com participação dos autores da teoria. O estudo independente de 1998 não encontrou o padrão. Não localizamos nenhum estudo grande, com centenas ou milhares de bebês, feito por uma equipe sem ligação com os autores.
Por que os pesquisadores discordam?
O estudo de 1998 virou uma briga pública na Holanda, noticiada pelos jornais do país. Carolina de Weerth tinha começado a pesquisa como doutoranda de Plooij, e o próprio Plooij tirou o nome do artigo antes da publicação, por discordar da análise. Para ele, o estudo não separou o que chama de “ruído”: algumas mães seguiam horários muito rígidos de sono e de mamada, e outras condições da família, que não tinham sido previstas, podiam mexer com o humor dos bebês. Já de Weerth e van Geert concluíram que o desenvolvimento dos 4 bebês foi bem mais irregular do que a teoria prevê, e diferente de um bebê para outro.
Não cabe a nós decidir quem tem razão. O que a história mostra é que a questão nunca foi fechada pela ciência, e que as datas do livro continuam sendo uma proposta dos autores, não um consenso.
O que se sabe com mais segurança?
- O desenvolvimento não é uma linha reta. Pesquisadores discutem há décadas se ele acontece em etapas ou de forma contínua. Há fases de mais mudança e fases mais estáveis, mas o tempo de cada bebê varia muito.
- O choro dos primeiros meses tem um padrão. Esse sim é bem estudado: quase todo bebê passa por uma fase de mais choro nos primeiros meses, que depois diminui. Explicamos em tipos de choro do bebê.
- Marcos têm faixas, não datas. As listas usadas pelos pediatras dizem o que a maioria dos bebês já faz em cada idade, com folga para quem faz antes ou depois. Veja os marcos do desenvolvimento.
- Dia difícil tem muitas causas. Sono, dentes, doenças, mudanças na rotina e o temperamento de cada bebê pesam tanto quanto qualquer fase.

Pote, tampa e colher de pau
Dê ao bebê sentado um pote de plástico vazio, a tampa e uma colher de pau. Deixe que ele bata, tampe, destampe e descubra os sons. Você só acompanha e comenta o que ele faz. Fique sempre por perto.
10 minutos · pote com tampa e colher de pau · 6 a 12 mesesReceba uma por dia no appVale a pena usar o calendário de saltos?
Depende de como você usa. Se o calendário ajuda a respirar fundo e pensar “é uma fase, vai passar”, ele está fazendo um bom trabalho. Muitas mães contam exatamente isso: saber que outras famílias passam pelo mesmo traz alívio.
O cuidado é não transformar o calendário em régua. Ele não diz se o bebê está bem, não prevê a próxima semana e não explica tudo. Se o bebê está difícil fora das datas, está tudo bem. Se está nas datas, mas com febre ou recusando mamadas, não é salto: é hora do pediatra. A duração de cada fase e os sinais que pedem atenção estão em quanto tempo dura o salto de desenvolvimento.
É assim que usamos aqui no site: o calendário de saltos mostra a época do livro e uma brincadeira para cada fase, sempre com o lembrete de que cada bebê tem seu ritmo. E se você procura um salto aos 2 anos, o livro termina antes disso; contamos o que costuma acontecer nessa idade no salto de 2 anos.
Quando conversar com o pediatra
Perguntas frequentes
Por que tantas mães se reconhecem nos saltos?
Porque bebês têm mesmo dias mais difíceis, com frequência, e as fases descritas são largas o suficiente para quase sempre coincidir com algum. Além disso, saber que “é uma fase” acalma, e isso tem valor por si só, mesmo sem prova científica das datas.
Salto de desenvolvimento é a mesma coisa que regressão do sono?
Não exatamente. Regressão do sono é o nome popular para fases em que o bebê volta a acordar mais, como por volta de 4 meses. Muitas vezes as duas coisas são citadas juntas, mas uma não depende da outra, e nenhuma das duas é doença.
O que os pediatras usam no lugar dos saltos?
Os marcos do desenvolvimento por idade, como os da Caderneta da Criança e os do CDC. Eles dizem o que a maioria dos bebês já faz em cada faixa, sem prever semanas de choro.
Se a teoria não é comprovada, faz mal usar o calendário?
Não, desde que ele não vire régua. Como lembrete de que fases difíceis passam, pode ajudar. O problema é usar o calendário para concluir que o bebê está “na frente”, “para trás” ou “devendo” alguma novidade.
Existem estudos mais recentes sobre os saltos?
Até onde encontramos, o estudo mais recente com revisão científica é o espanhol de 2010, que teve um dos autores do livro como coautor. Não encontramos um estudo grande e independente que tenha confirmado as semanas fixas.
van de Rijt-Plooij HHC, Plooij FX. Infantile regressions: disorganization and the onset of transition periods. Journal of Reproductive and Infant Psychology (1992).
de Weerth C, van Geert P. Emotional instability as an indicator of strictly timed infantile developmental transitions. British Journal of Developmental Psychology (1998).
Sadurní M, Rostan C. Regression periods in infancy: a case study from Catalonia. The Spanish Journal of Psychology (2002).
Heimann M (org.). Regression Periods in Human Infancy. Lawrence Erlbaum (2003).
Sadurní M, Pérez Burriel M, Plooij FX. The temporal relation between regression and transition periods in early infancy. The Spanish Journal of Psychology (2010).

Joyce Sousa
Psicóloga · CRP 06/221203. Escreve no Bebê Brinca sobre emoções, vínculo e o brincar na primeira infância.
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Escrito por Joyce Sousa em 31/10/2026. Conteúdo informativo. Não substitui o acompanhamento do pediatra. Como fazemos o conteúdo
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